O ENIGMA DO MERCADO DE TRABALHO NO BRASIL, por Gustav Gorski

O ENIGMA DO MERCADO DE TRABALHO NO BRASIL, por Gustav Gorski

20/08/2014

A economia brasileira não cresce acima de seu potencial a um bom tempo. O crescimento médio do PIB nos últimos três anos foi de apenas 2,1%. Além disso, as perspectivas para 2014 e 2015 sinalizam que este cenário de crescimento será ainda mais fraco (Graf. 1). No entanto, a taxa de desemprego no Brasil aponta que o número de desempregados em nossa economia é a menor de nossa história. A taxa de desemprego divulgado pelo IBGE para junho/14 foi de 4,5%, a menor da série histórica para este período do calendário (vide Graf. 2). Qual a explicação para este fato?

A teoria econômica ajuda. Em geral, a taxa de desemprego é uma das variáveis econômicas mais ‘atrasadas’ em relação ao desempenho da economia, isto é, uma das que mais demora a se movimentar dentro do ciclo econômico. Ou seja, em períodos de crescimento econômico acima do potencial (booms), o desemprego demora mais que as outras variáveis econômicas a apresentar resultados mais positivos e em períodos de crescimento econômico abaixo do potencial (busts) o desempenho é semelhante, mas inverso.

No entanto, três anos é muito ‘atraso’ e há, claramente, outros fatores que também contribuem para este descompasso entre o desempenho da economia e da taxa de desemprego. No Graf. 3, é possível observar um fato novo na economia brasileira: a queda da população economicamente ativa (PEA). Este fenômeno acontece quando as pessoas em idade ativa decidem não participarem do mercado de trabalho. Este processo é recente no Brasil e iniciou-se em meados de 2013.

O Graf. 4 nos mostra que são os jovens entre 18 e 24 anos que estão deixando a PEA, o que se leva a argumentar que parte substancial do movimento de redução da PEA é feita para aumentar o período de estudo, principalmente o ensino superior, em razão das facilidades de financiamento atuais. Se isto for verdade, há chance de termos uma mão de obra com melhor qualificação no futuro, melhorando marginalmente nossa produtividade.

Outros fatores de mais difícil mensuração também podem ajudar a explicar a queda da PEA. Os gastos com seguro desemprego é recorde e em conjunto com a elevada rotatividade da mão de obra nos últimos anos pode sugerir que este mecanismo de suavização para períodos com maior desemprego está sendo usado fora de seu objetivo original. Além disso, os mecanismos atuais de distribuição de renda do governo federal podem também estar tendo efeito sobre a disponibilidade das pessoas em trabalhar.

De qualquer modo, a questão que fica no curto prazo é que nosso mercado de trabalho está encolhendo. Com menor oferta de mão de obra, a atividade econômica retrai, mesmo com queda do desemprego. Assim, não se pode descartar uma continuidade de pressão de custos vindas da mão de obra, mesmo em uma economia que cresce pouco. No entanto, nos próximos períodos, quando estes ‘novos’ estudantes reingressarem no mercado de trabalho, esta situação tenderá a ser rapidamente revertida, com forte elevação do desemprego caso não haja absorção deste contingente populacional pela criação de novas vagas de trabalho. A tendência atual aponta para esta situação