De volta para o futuro, por Gustav Gorski

De volta para o futuro, por Gustav Gorski

28/09/2015

O desempenho da atividade econômica nos últimos anos, principalmente em 2015, tem sinalizado que a economia brasileira está não só conjunturalmente desorganizada, mas também estruturalmente ineficiente.

Os erros de diagnósticos macroeconômicos estruturais, principalmente aqueles que superestimaram o potencial de crescimento, em conjuntos com medidas conjunturais macroeconômicas – a nova matriz macroeconômica – desestabilizaram a eficiência da atividade econômica, desequilibraram as contas públicas, reativaram o processo inflacionário e maquiaram um ajuste econômico inexorável. Além disso, os escândalos de corrupção com empresas estatais, o uso de empresas de economia mista para maquiar despesas públicas e um processo eleitoral que deixou muitas dúvidas em relação a sua lisura corroboraram para a perda da confiança em nossa economia.

As causas e consequências econômicas deste processo lembram bastante o nosso passado turbulento em que erros de diagnósticos econômicos geraram bem mais de uma década de perda de bem-estar econômico. E é neste contexto que estamos voltando para o futuro, ou seja, nos encontramos hoje em um processo de ajuste econômico que, se efetivo, levará anos para trazer de volta a eficiência econômica que perdemos. Este artigo trata exatamente destes erros de diagnóstico estruturais e conjunturais, das consequências econômicas e serve para introduzir a discussão de possíveis medidas de ajuste que coloquem nossa economia no eixo tempestivamente.

O principal erro de diagnóstico estrutural foi a leitura de que o Brasil era uma economia com elevado potencial de crescimento econômico. De forma geral, havia uma perspectiva ‘vendida’ pelo setor público e ‘comprada’ pelo setor privado de que a economia brasileira possuía um potencial futuro de crescimento do PIB próximo de 4,5% ao ano. O gráfico 1 aponta claramente este erro de diagnóstico. Nele é possível visualizar o quão superestimada foi a expectativa para crescimento econômico. Quais as razões disto: 1 – o crescimento do consumo foi um processo liderado por crédito e por elevação de salários, ambos processos econômicos cíclicos, que se esgotam, e não por elevação da produtividade da mão de obra; 2 – o crescimento do investimento, que é induzido por políticas macroeconômicas eficientes – gestão monetária e fiscal que controle a inflação e as contas públicas e permitam o setor privado evoluir – obteve exatamente o incentivo contrário; 3 – a ilusão do superciclo das commodities nos passou a falsa sensação potencial de crescimento. Enquanto o petróleo/minério de ferro apresentava uma cotação acima de US$ 120 por barril/tonelada nos sentíamos ‘ricos’, agora que estão cotados ao redor US$ 50, o sentimento é o contrário (vide gráfico 2). Hoje, na melhor das hipóteses, nosso potencial de crescimento está ao redor de 1,5% ao ano, algo que, pela perspectiva de crescimento de 2015 e 2016, está longe de ser atingido.

Os erros de diagnósticos conjunturais foram generalizados. No intuito de manter a ilusão de um crescimento potencial elevado, uma enormidade de medidas econômicas esdrúxulas foi tomada. É possível exemplificar as mais salientes: 1- redução da taxa básica de juros muito abaixo da taxa neutra nominal. A queda da meta para a taxa Selic entre 2011 e 2012 enquanto as expectativas de inflação cresciam distorceu o principal preço da economia (vide gráfico 3); 2 – crédito subsidiado: o incentivo ao endividamento foi excessivo para a pessoa física e a tomada de crédito foi ineficiente para a pessoa jurídica. Distorcer o custo do capital incentiva comportamentos oportunistas, os quais aceleram os efeitos contrários aos objetivos iniciais de ampliar consumo e investimento. Além disso, o custo do subsídio recai sobre a sociedade; 3 – redução de preços de produtos escassos: a redução de 20% na conta da energia elétrica em 2013 incentivou erroneamente o consumo de um produto extremamente escasso em nossa economia. Esta medida conjuntural não só causou um rombo bilionário no setor elétrico do país, mas também fez com que a recomposição dos preços da energia fosse pontuda, cerca de 50% somente em 2015; 4 – incentivo à redução da taxa de desemprego abaixo da taxa natural: as medidas de desoneração da folha de pagamento, incentivo indireto ao emprego, em um momento em que a taxa de desemprego no Brasil já era bastante abaixo de sua taxa natural não só distorceu o mercado de trabalho (aumento excessivo dos salários reais e incentivo a redução da produtividade), mas também ocasionou um pico de desemprego iniciado principalmente neste ano. Esta medida, em conjunto com benefícios enormes de auxílio desemprego, crédito estudantil desmedido e regras esdrúxulas de recomposição do salário mínimo reduziu sensivelmente a produtividade da mão de obra nos últimos anos (gráfico 4).

As consequências deste desajuste saltam os olhos: 1 – queda da confiança em todos os setores da economia. O gráfico 5 mostra o comportamento da confiança em vários setores de nossa economia; 2- volta da inflação: ineficiência econômica resulta em inflação. O gráfico 6 mostra o núcleo da inflação, já retirando a elevação de preços específicos tais como energia e gasolina; 3 – perda de dinamismo dos principais setores da oferta da economia brasileira: a indústria não cresce desde 2013. O setor de serviços não cresce desde 2014. O varejo não crescerá em 2015; 4 – desequilíbrio das contas públicas: o superávit primário virou déficit e os juros pagos pela dívida explodiram. Nosso déficit nominal acumulado em 12 meses é de mais de R$ 500 bilhões (vide gráfico 7); 5 – recessão econômica: para 2015, esperamos queda do PIB de 2,9%. Para 2016, esperamos queda do PIB de 1%. A expectativa de mercado não está longe disso; 6 – perda do grau de investimento: A agência de risco S&P retirou o grau de investimento do Brasil, sugerindo que este processo de deterioração de rating deve continuar.  Outras agências devem seguir o mesmo caminho; 7 – elevação substancial e generalizada do desemprego: o ajuste econômico desordenado está fazendo com que o desemprego se eleve em todos os setores da economia. Não há nenhum macrosetor da economia em 2015 que possua saldo positivo de contratações. Deverão ser cortados cerca de 2 milhões de postos de trabalho formal em 2015 (vide gráfico 8); 8 – pesada desvalorização cambial: a taxa de troca entre o real e o dólar norte-americano bateu novo recorde nominal, sendo negociado ao redor de US$ 4,00/R$.250.

Apesar desta situação econômica difícil, os riscos de piora do cenário preponderam aos riscos de melhora: 1 – paralisia política e impedimento do atual governo: a fragilidade política e a incapacidade de reação com o diagnóstico correto da atual situação econômica, bem como dos exageros que foram efetuados no passado em termos de gestão fiscal, conjugados com os escândalos de corrupção, podem colocar em cheque as instituições do país; 2 – retorno da inflação generalizada: uma saída comumente usada no Brasil para aliviar as contas públicas foi a inflação. O imposto inflacionário e a senhoriagem causam distorções enormes sobre a atividade econômica e o risco de uma volta da inflação mais elevada não pode ser descartado; 3 – apagão energético: somente não tivemos um apagão de energia em 2015 em razão da forte elevação dos preços e, principalmente, da enorme queda da atividade econômica. A situação atual dos reservatórios hídricos é apertada e muito dependente de chuvas em um cenário de El Niño ganhando corpo; 4 – elevação dos juros nos EUA: a economia norte-americana já se recuperou da grande recessão e os juros nesta economia subirão logo. Estaremos bastante despreparados para a elevação do principal preço da economia mundial; 5 – Finanças regionais: a situação das finanças regionais também aparece como um risco. Não é possível descartar que o que está acontecendo no estado do Rio Grande do Sul não se espalhe para outras entidades regionais; 6 – uma recessão ainda maior: a falta de assertividade do comando da economia em tomar medidas mais fortes pode agravar o quadro econômico e aumentar ainda mais o quadro recessivo da economia.

A economia brasileira passou boa parte dos anos 70, todo os anos 80 e metade dos anos 90 em uma situação econômica parecida, mas bem mais complexa, do que a de hoje. A sensação de que havíamos ultrapassado estes impedimentos conjunturais e estruturantes para a elevação do bem-estar apresentou uma esperança e um período notável para nossa economia. Boa parte desta conquista foi perdida e recuperá-la não será fácil e parte inexoravelmente pela diminuição do tamanho do estado em nossa economia. Se isso não estiver claro para a sociedade, a situação pode piorar ainda muito. Hoje voltamos para o futuro e se não tomarmos atitudes ainda mais fortes, voltaremos para o passado.

 

Gustav Gorski