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ESTAGNAÇÃO SECULAR E IMPACTOS NO BRASIL, por Gustav Gorski

Publicado em: Artigos

Deixando um pouco de lado as mazelas da economia interna e focando na estrutura da economia internacional, é possível afirmar que temos uma perspectiva em forte modificação. E esta modificação estrutural está presente em todos os grandes blocos econômicos internacionais: China, Europa e Estados Unidos.

 

A China apresentou crescimento real médio a taxas de dois dígitos nos últimos 30 anos. Neste período, o investimento saiu de cerca de 32% para 48% do PIB. Foram as três décadas que a China construiu sua infraestrutura, industrializou-se, tornou-se um país urbano, com a migração de milhões de pessoas do campo para as cidades e virou um país com estrutura política centralizada, mas com uma economia de mercado. No entanto, este período de forte crescimento do investimento, de transição do campo para a cidade e de orientação de exportação da sua produção industrial está se esgotando, senão já se esgotou. Hoje, o que temos na China é uma economia em plena transição de um país investidor e acumulador de capital físico para uma economia de consumo e alocador de poupança financeira. As modificações no sistema financeiro efetivados pelos membros do governo, com novas regulamentações, maior governança e criação de meios alternativos de alocação de poupança das famílias e empresas apontam que este caminho é claro e permeará a economia Chinesa pelas próximas décadas. Enquanto este processo estiver em transição, teremos menor crescimento econômico, algo entre 6 e 7% real, inflação baixa, ao redor de 2% ao ano e bastante incerteza acerca da efetivação e efetividade sobre esta nova alternativa de crescimento.

 

A Europa, em especial a Área do Euro, tem apresentado crescimento econômico baixo, menor do que 2% em termos reais nas últimas décadas e em declínio, desemprego elevado, acima de 8% e hoje em mais de dois dígitos. Há claramente uma acomodação da estrutura da economia com menor crescimento e menos trabalho. No entanto, a consequência desta estrutura é o forte endividamento dos países da região. A dívida bruta como razão do PIB para a Área do Euro subiu de cerca de 55% no início dos anos 90 para 95% em 2013. Neste contexto, o ajuste fiscal é inexorável. Com este nível de endividamento não há mais como o estado prover serviços e renda como no passado e isto deve impactar negativamente ainda mais o crescimento econômico. Além disso, as taxas de juros devem continuar bastante abaixo do históricos recente e a inflação em um patamar baixo, com risco de deflação. Além de todo este contexto econômico, em termos de estrutura populacional, o envelhecimento da população europeia deve ainda pesar mais sobre o nível de emprego e estrutura de gastos dos governos.

 

Nos Estados Unidos, apesar da recuperação lenta, mas evidente, após a grande recessão, a queda da taxa de participação, isto é, das pessoas em idade de trabalho que estão no mercado de trabalho, tanto por fatores cíclicos quanto por estruturais, tem sido um fardo para as perspectivas de crescimento potencial. Até mesmo órgãos do governo dos Estados Unidos têm projetado taxas potenciais de crescimento menor do que 2% para os próximos anos. Neste contexto, o envelhecimento da geração baby boomers é o principal fator no qual o potencial de crescimento será menor. Vale lembrar também que apesar de a economia norte-americana estar se recuperando, as taxas nominais de juros estão próximas de zeros por cerca de cinco anos e a inflação mantém-se abaixo de 2% ao ano. E este deve ser um cenário persistente, com a normalização monetária acontecendo a partir de 2015, mas colocando a taxa de juros em um patamar abaixo do que foi normal em anos anteriores. Não obstante esta situação econômica, o impulso que foi dado para a exploração do gás de xisto (shale gas) e de petróleo dentro das bacias norte-americanas mudou o perfil de alta dependência norte-americana de petróleo e derivados, alterando substancialmente o cenário de preços sazonais e estruturais para este tipo de commodity.

 

Este cenário estrutural dos principais blocos econômicos, que tem-se chamado de estagnação secular, isto é crescimento potenciais menores, taxas de juros de equilíbrios mais baixas e inflação moderada, tem várias consequências para a economia mundial. Dentre as principais consequências, está o comportamento do preço das commodities. Com crescimento menor, independente da baixa taxa de juros, o preço das commodities deve ter comportamento bastante diferente do que ocorreu nas últimas décadas. Em especial, as commodities metálicas e energéticas devem comportar-se bem mais moderadamente em relação ao que vimos nos últimos anos.

 

As consequências econômicas para o Brasil não são positivas. Cerca de 65% do que exportamos são commodities e parte delas são metálicas, no caso do minério de ferro. Não obstante, caso os investimentos no pré-sal sejam viáveis economicamente, estamos nos encaminhando para ser um exportador líquido de petróleo justamente em um período em que a commodity energética tende a entrar em um período de suavização de preços. Além disso, e de forma mais geral, cerca de 45% do total de nossas exportações são destinadas para EUA, Europa e China. Claramente, se quisermos que o nosso setor externo continue a ser um driver de crescimento, temos que imediatamente procurar novos mercados e abrir mais nossa economia, o que não parece ser uma realidade do ponto de vista político.

A boa notícia é que a economia mundial será menos inflacionada, sendo benigno para que nosso processo inflamatório (inflacionário) regrida. No entanto, este argumento deve ser observado com certa reserva. Taxas de câmbio servem como buffers para variações das relações de preços internos versus preços externos. Como o Brasil é um exportador de commodities, a queda do preço destes ativos deve ser, mesmo que parcialmente, revertida pela tendência de desvalorização cambial. E como dependemos bastante de importações de produtos intermediários e finais, estes produtos encarecerão com a alta do câmbio.

 

Em resumo, se a tese da estagnação secular estiver correta e o mundo for mais ‘morno’ nos próximos anos, isto não deve ser benigno para a economia brasileira. Passamos os últimos anos nos regurgitando pelo cenário externo estar quase sempre nos ajudando. Nos endividamos e gastamos boa parte de nosso dinheiro em viagem internacionais, enquanto perdemos a oportunidade de adicionar competitividade para nossa economia no período de valorização de nossa moeda. A água está baixando e somente assim conseguimos notar que não estávamos adequadamente vestidos. Aparentemente, mais uma vez em nossa história, o cavalo passou, parou, estava encilhado e não tivemos a capacidade de montar pelo lado correto.

 

 

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